O que a Copa do Mundo pode nos ensinar sobre evidências?
O que a Copa do Mundo pode nos ensinar sobre evidências?
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Por Daniela Melo | Diretora-geral do Vértice
http://lattes.cnpq.br/5052823551616937
A Copa do Mundo desperta muitas discussões sobre desempenho. Afinal, o que faz uma seleção ser considerada uma candidata a títulos? Marcar muitos gols? Ter a melhor defesa? Vencer todas as partidas durante a competição? Estar melhor colocada no ranking da FIFA? Em uma analogia, todos esses são desfechos intermediários/substitutos (surrogate outcome), mas o que importa mesmo é ter o resultado pretendido: no caso da Copa, levantar a taça!
Os estudos clínicos, que usamos como base para a Avaliação de Tecnologias em Saúde (ATS), estabelecem desfechos primários, aqueles que representam o resultado mais importante para pacientes e para a tomada de decisão. Na área da saúde, o exemplo mais importante de desfecho primário é a redução da mortalidade. Porém, nem sempre as condições, como prazo de execução do estudo e de evolução da doença, permitem determinar a diferença na mortalidade, daí a importância de desfechos que possam ajudar a prever o resultado, ou seja, os desfechos substitutos.
Dessa forma, a redução de um biomarcador, redução de sintomas e/ou aumento da qualidade de vida podem sinalizar melhora, sem necessariamente garantir benefício clínico real.
A Copa do Mundo ajuda a visualizar essa diferença de forma bastante intuitiva
Fonte: Elaborado pelo autor com auxílio do ChatGPT (OpenAI), 2026.
Excelentes resultados intermediários nem sempre levam ao desfecho final desejado. Na Copa de 2006, a Suíça encerrou sua participação sem sofrer nenhum gol até as quartas de final da competição, estabelecendo um dos melhores desempenhos defensivos da história dos Mundiais. Ainda assim, foi eliminada nas oitavas de final. Já a Hungria, em 1954, marcou impressionantes 27 gols, recorde absoluto em uma única Copa do Mundo, mas terminou apenas com o vice-campeonato. Mais recentemente, Marrocos, em 2022, chegou às semifinais sofrendo apenas um gol em cinco partidas, desempenho defensivo excelente, mas insuficiente para conquistar o título.
Resultados favoráveis em desfechos substitutos aumentam a expectativa de benefício, mas não garantem que o desfecho primário será alcançado.
Na ATS, compreender essa diferença é essencial para interpretar corretamente as evidências científicas e apoiar decisões mais seguras sobre incorporação, utilização e financiamento de tecnologias em saúde.
Se um bom desempenho intermediário não garante o título, quanto o resultado de um jogo pode contribuir para prever quem vai levantar a taça?
Na Copa de 2026, um jogo ilustra bem tanto a questão dos desfechos intermediários quanto a do comparador adequado: a Espanha teve mais de 70% de posse de bola e 21 finalizações no empate sem gols contra Cabo Verde. Esse desempenho fez a imprensa espanhola chamar o empate de "desastre", mas por que um empate gerou toda essa comoção?
A explicação abre espaço para discutirmos a relevância do comparador: a Espanha chegou como uma das favoritas na Copa e é a 2ª colocada no ranking da FIFA enquanto Cabo Verde (64º) é estreante na Copa.
A escolha do comparador adequado é um princípio básico da ATS.
Quando um novo medicamento é avaliado para incorporação no SUS, uma das primeiras perguntas na Conitec é: "comparado com o quê?" Um tratamento que se mostra superior ao placebo pode não ser melhor do que o que está disponível no SUS. Inclusive, essa é uma diferença estruturante entre as avaliações da Anvisa e da Conitec. A Anvisa decide quais tecnologias podem ser comercializadas, com base no princípio de eficácia e segurança mínimas. Já a Conitec recomenda, favoravelmente ou contra, que recursos públicos sejam usados para adquiri-las: para isso, a tecnologia precisa trazer benefício incremental em eficácia, efetividade e/ou segurança, ser custo-efetiva e caber na viabilidade orçamentária do sistema.
Desfecho substituto favorável não é sinônimo de desfecho primário alcançado. E um resultado numérico, sem considerar o comparador, não é sinônimo de benefício clínico comprovado. Compreender essas diferenças é o que permite interpretar evidências científicas com rigor e apoiar decisões mais seguras sobre incorporação, utilização e financiamento de tecnologias em saúde, para que o SUS continue jogando, e vencendo, no longo prazo.
Mas e a eliminação da Alemanha na disputa em 2026?
Toda eliminação é dolorosa, especialmente quando acontece de forma inesperada, como no jogo da Alemanha e Paraguai nos 16 avos de final da Copa de 2026. Esse exemplo também serve para lembrar que as analogias entre futebol e evidências têm suas limitações, e esse tema será abordado numa próxima Hora do Estudo do Vértice, edição Especial Copa do Mundo.
Fonte: Elaborado pelo autor com auxílio do ChatGPT (OpenAI), 2026.